sexta-feira, 22 de outubro de 2021

PRECISAMOS FALAR SOBRE "MAID"

 



    Precisamos falar sobre "Maid", e se for preciso, chorar também, mas saiba que as lágrimas serão muito mais pela linda mensagem, do que por qualquer tristeza ou sofrimento. Essa é a minissérie da Netflix que tem como tema: a coragem.
    E se para você, falar sobre os abusos contra mulher e violência doméstica é um assunto já tão explorado, saiba que "Maid" vem para quebrar tudo! Porque não se trata de um simples relato, ela narra comportamentos humanos, escolhas humanas, e nos oferece um novo olhar sobre a mulher que não se coloca no lugar da vítima, tudo isso de uma maneira única e delicada.
    Uma história que foge ao estereótipo da mulher negra pobre que sofre violência, que precisa ganhar a vida como uma empregada doméstica e que sofre humilhações, preconceito etc, para estar focada na questão do universo feminino como um todo: a mulher que precisa buscar sobrevivência para ela e para a filha. A realidade e os sentimentos da mulher dependente financeiramente e emocionalmente do marido alcoólatra, violento, e que diante de uma situação limite de violência, se vê completamente sem rumo, tendo que fugir para recomeçar, a partir do nada. E como tememos o nada! De repente estar sem "amor", sem estrutura financeira... É desesperador, não é? Quantas vezes nos submetemos por medo de estar nesse lugar? Pois essa série trata sobre o verdadeiro empoderamento, o do ser humano que busca as soluções para si mesmo independente das dificuldades e obstáculos. Da mulher que carrega a roupa do corpo, a filha, nenhum dinheiro, nenhuma formação que a permita um bom emprego, mas muita muita coragem.
    Como roteirista que sou, claro que as análise estão sempre divididas entre, técnicas de narração e o impacto da narração para a audiência. Isso significa compreender: A mensagem foi passada? Porque é importante entendermos que há um oceano inteiro que separa a intenção de dizer, do que realmente se diz e do que o público entende.
    "Maid" é tão humano, e antes que você me diga, Ah! mais essa série é baseada em fatos reais e adaptada do livro: "Maid": Hard Work, Low Pay and a mother's Will to survive"!  Entretanto isso não muda um fato: a narrativa nesse caso faz toda a diferença, e fez. Desde a escolha do elenco, interpretação, direção, montagem magnífica, trilha sonora impecável, até a medida exata de humanidade e verossimilhança em cada cena, sequências com entrelaçamento dinâmico entre tempo presente e backstory que narram de maneira sensacional, as elipses temporais, cada diálogo. Enfim, uma narrativa moderna que soube medir a mão nas tintas do drama, a quebra nos momentos de descontração com uma nota leve de humor, muito agradável, de forma delicada e muito natural. Um exemplo é quando Alex, a protagonista, em seu ápice, tem sua sequência de cenas que mesclam diálogos e dança, e não há qualquer estranhamento nisso porque estamos com ela, naquela mesma vibração de alegria, embora aflitos, com medo de que aquela felicidade dure pouco, e dura, mas esse é um exercício muito saudável, proposto através das curvas narrativas, que é oferecer à audiência diferentes estímulos e expectativas e seja assim absorvida cada mensagem através das informações visuais e sensoriais, com o tempo da reflexão, sem perder nada. 
    Somos tragados para dentro da história no primeiro minuto de cena: o olhar amedrontado da protagonista já nos diz o que podemos esperar. Uma jovem mãe que sai da própria casa, escondida com a filha de 3 anos no colo, no meio da madrugada, e assim que entra no carro, aparece o marido batendo no vidro enquanto ela arranca em ritmo de fuga. E é nessa toada de tensão e muita torcida, até o final, que vamos ora como dinâmicos da protagonista, ora como buddies, ora como fôssemos ela mesma. Uma narração feita por imagens mais do que com diálogos, além dos pensamentos da protagonista narrados através imagens alegóricas, ou flashs de passado que reiteram o presente, mais do que pelo tão conhecido Voice over.
    E qual o impacto dessa narrativa no espectador? Em primeiro lugar a identificação imediata, no caso das mulheres, com a questão da independência x opressão, dos caminhos para alcançar a liberdade de ser, e da maternidade. A partir daí, uma enxurrada de questionamentos. Quantos de nós já não sofremos algum tipo de violência psicológica? Seja na infância em decorrência de pai ou mãe desestruturados emocionalmente, na vida adulta, com um amigo, um namorado, um chefe, ou marido? Aliás homens também passam por isso. Mas tratemos da questão feminina que ainda ressente o subjugamento pelo masculino, em uma sociedade ainda machista (mas que aos pouco vai mudando), independente da classe social, grau de instrução ou raça.
    E quando o abuso é na infância ainda seja mais provável cair em situações similares na vida adulta, e mais difícil seja encontrar a porta de saída dessa vida que se torna infeliz, torturante porém passiva. E a dor se torna um tipo de zona de conforto. Maid, expõe não apenas o problema e indica a porta de saída, vai além, nos ensina o "como" sair: senso de realidade, rejeitar o papel de vítima, ser humilde, não ter o medo de receber "nãos", ou de perder. Coragem e ousadia são os codinomes de Alex, além da empatia e altruísmo que ela esbanja, ela é alguém que tem esperança. Apesar de tantas qualidades, nossa protagonista está em processo de correção do seu misbehavior: passividade, auto anulação, medo. E com ela compramos essa briga e a acompanhamos em sua escalada de transformação.
    Eis a mensagem de Maid: "A vida está ruim, cheguei no meu limite, não tenho mais nada a perder. Então eu arrisco, eu peço, eu procuro, porque eu amo minha filha mais do que a mim mesma, e vou vencer, por mim e por ela. E se a dúvida surgir e eu perder mais uma vez, eu faço tudo de novo, me reinvento, porque eu mereço, eu tenho valor, e ocupo um lugar no mundo e na sociedade. Não preciso do sofrimento, eu simplesmente luto e acredito que tudo vai dar certo. Esperança, esperança, esperança." 
    E quando fazemos a nossa parte, o universo conspira a favor, se encarrega de colocar as pessoas certas em nosso caminho, nos abre portas, nos traz sorte, sempre. Mais do que nunca, "Maid", é a arte  imitando a vida, lindamente.




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