Como toda criação, a série Valéria, é uma experiência de percepções e sensações que podem trazer insights diferentes para diferentes cabeças e corações. Seu tema: auto estima. Ame-se! É essa a mensagem que a série nos entrega. Não podemos dizer que seja uma série de mergulho profundo nas questões do ser humano, contudo, Valéria cumpre o que promete: ser uma série de comédia, leve, dinâmica, e que traz sim embutido em suas histórias, serializada e procedurais, questionamentos e reflexões, porém de forma mais democrática, ou seja, refletir ou apenas se divertir fica por conta do freguês.
Uma narrativa que cresceu ao longo de suas duas temporadas. Valéria conta a história de quatro amigas que buscam o protagonismo de suas vidas, na área amorosa assim como na profissional. Valéria, Nerea, Lola e Carmem são as personagens que apresentam ao público, o vasto, rico e complexo universo feminino em todos os seus tons, sabores e fragrâncias. Relacionamento, sexo, compromisso, insegurança, sexualidade e sucesso profissional são alguns dos assuntos abordados.
A fórmula (que está em alta) dinâmica e moderna de narrar, (incluindo dança, a interação entre live action e pequenas animações que passeiam pela tela, além dos clips com as elipses temporais), nos entrega de maneira visual e extrovertida dois momentos: a vida de cada uma das quatro amigas, individualmente, sob o teto de um o mesmo subtema, normalmente nas tramas procedurais, e depois, no desenrolar de cada episódio, a confluência dessas quatro realidades, em uma só, tendo assim um desfecho, uma mensagem ou um gancho que acarreta em ainda mais questões a serem resolvidas. A trama serializada é basicamente alimentada, e enriquecida pelas pequenas histórias que reiteram o misbehavior e a curva de transformação de cada uma das quatro personagens. Ter a mulher como ponto central de uma obra tem sido uma tendência que também vem se consolidando já tem uns anos.
Mas quais são os ganhos dessa série nas reflexões práticas da vida? Enumero aqui algumas e acredito que tantas mais possam ser extraídas da história
1- Uma mulher que não se sente amada, é insegura com seu talento/trabalho que nunca se concretiza, e por é sempre alvo do julgamentos familiares (a eterna ovelha negra), trai o marido, se separa e embora concretize a escrita de seu primeiro livro, ainda continua no limbo das inseguranças e das dúvidas com relação ao amor para depois compreender que as desventuras no amor não passam de justificativas para auto anulação e o medo de levar a frente seus projetos profissionais; 2- A mulher super protegida pela família desde pequena, criada para seguir a carreira de pai e mãe, e que com isso não aprendeu a viver além de sua pequena bolha, além de tudo tem uma orientação sexual que seria um ultraje para a família; 3- Uma mulher que quando pequena foi abandonada pela mãe, já adulta vê o homem apenas como um objeto de desejo, assim como também se coloca como uma mulher que não cria vínculos, ela é altamente sexual, sem qualquer pudor de aplacar seu desejo seja onde for, mas se apaixona por um homem comprometido, se submete a ele se autoboicotando; 4- Uma mulher insegura com a própria aparência que se apaixona pelo colega de trabalho, que corresponde a essa paixão, estabelecendo assim uma parceria amorosa porém extremamente competitiva profissionalmente falando. Ela tem medo de superá-lo no trabalho, e perdê-lo por isso.
Questões atemporais, de eterna reflexão.
Outro ponto que chama bastante atenção são as cenas de sexo. Muitas. Não fora de contexto mas bastante "calientes". Talvez uma forte característica das produções latinas ou seja a maneira mais visual de se mostrar a grande diferença que existe entre liberdade sexual, e liberdade de espírito. As quatro amigas falam abertamente sobre sexo, o fazem, mas ainda assim sentem-se amarradas a suas questões de ordem emocional.
O ponto alto da série é a amizade, ou melhor ainda: a sororidade. Quatro amigas que tem uma união que normalmente relacionaríamos ao velho e conhecido corporativismo masculino: amigos inseparáveis e fiéis até a morte. Mas será a amizade entre mulheres possível dessa forma? Assim tão de perto, na convivência diária? Onde as opiniões são sempre muito verdadeiras e genuinamente bem intencionadas cem porcento das vezes, onde uma amiga não deseja o homem da outra bem como a aparência, dinheiro, etc... Nas série Valéria não apenas é possível, mas carrega também uma mensagem importante. De repente compreender que o acolhimento entre mulheres, mais do que o olhar crítico e julgador, independente de bandeiras ideológicas, poderia diminuir bastante os abusos sexuais, assédios sexuais, além do machismo. É algo para se refletir e se inspirar. Eu recomendo!

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