Uma série rodeada de sucesso e perplexidades. Devo assistir? Você pode me perguntar. Bom, onde há êxito é necessário estar um roteirista que queira compreender estilos, tendências, afinal, o que o público quer assistir. Assim nos deparamos com Round 6.
Toda análise fica em função do lugar (espaço/tempo) em que se está, e a questão não seja assistir ou não, e sim, como assistir. Quero dizer, com que olhar.
Uma narrativa que nos oferece camadas, e para cada camada um tema diferente. Será? Vamos pensar juntos. À parte a ideia gatilho do roteirista para desenvolver a história, não podemos esquecer de que toda criação toma vida e faz seu próprio caminho.
Com relação ao roteiro, independente das acusações de plágio, ele serve bem à narrativa, curvas que funcionam, alguns lugares bem clichês, um desenrolar previsível para as tramas, mas uma interpretação (do protagonista) que fez toda a diferença.
Comecemos pela descrição da história, e percebam que logo neste ponto já nos são oferecidos diferentes olhares. O primeiro: Pessoas endividadas que na ânsia do dinheiro fácil, participam de um jogo composto por seis diferentes brincadeiras infantis, onde o perdedor paga com a própria vida. Outro olhar: No desespero de pagarem suas dívidas, pessoas se sujeitam a um jogo mortal sob aplausos e diversão dos poderosos. Algo como aquelas lutas entre gladiadores e leões, na Roma antiga, sob a torcida e o deleite de imperadores e aristocratas.
Duas descrições que nos entregam temas como: a ética e moralidade do ser humano nos tempos de hoje, e injustiça/desigualdade social. E aí entra a audiência. E encontramos públicos diversos, o que está preso às questões ideológicas, o público que procura apenas um entretenimento, é curioso e curte o que está no Top 10 da parada, o público que odeia o grotesco e proíbe suas crianças de assistirem (o que claro tem efeito reverso)... e é exatamente essa pluralidade somada que traz sucesso e repercussão.
Nesse contexto podemos trazer duas principais análises: A que está boiando na superfície, e a do mergulho mais profundo nesse rio de sangue para compreender qual é a contribuição, de fato, que esta narrativa pode trazer à audiência.
Falemos sobre o protagonista, Seong Gi-Hun. Na superfície vemos um anti-herói. Um homem que não tem emprego, viciado em apostas, que quer dar o seu melhor à filha mas não consegue se ajeitar na vida. Um homem humilhado e vitimizado por sua própria condição. Em face da chance de ganhar muito dinheiro, ele entra num jogo onde, de início, é vencer ou morrer, e ao longo da história descobre-se que é matar ou morrer. Sim, matar os concorrentes (que se tornam oponentes) faz parte dessa maratona sanguinária para alcançar a vida cheia de dinheiro. Porém nosso protagonista foge à regra: ele tem essa boa alma de proteger os outros concorrentes, o velhinho, embora roubasse a própria mãe para apostar. Ele é totalmente contra os assassinatos, mas engana o velhinho, o mesmo que ele protegia até pouco tempo antes, para não ser morto. Contudo, quando chega na prova final, Seong, arrastando uma culpa quilométrica, entende que o dinheiro não está acima da vida de seu amigo de infância (último oponente). Profundamente arrependido ele desiste do jogo. E podemos, sim, entender que o personagem fez sua transformação.
Vamos então ao mergulho, porém aviso aos navegantes: o que está do outro lado não é nada bonito de se ver muito menos de fácil digestão. Dado o alerta, prossigamos.
Até que ponto Round 6 poderia ser um retrato fiel do mundo atual? E não estamos falando de ideologias, mas de comportamento humano. Será que corresponde? Um mundo onde queremos tudo para ontem, fácil e imediato. Um mundo dominado pelas contradições: protejo o meio ambiente mas maltrato meu vizinho, meu pai, minha mãe, hostilizo quem pensa diferente... Um mundo onde os "poderosos" instigam pessoas (grupos) a brigarem entre si, e lhes fornecem diariamente: armas verbais, armas visuais, distrações infantilizadas, para que os grupos estejam sempre entretidos com o desimportante e com munição suficiente para exterminar o "inimigo", no caso, outro ser humano. E matam, ou cancelam se preciso for. O dinheiro manda e o homem obedece, aceita as regras, joga o jogo.
Cruel, não é? E ainda que seja isso, e essa série venha para esfregar na cara do mundo uma verdade feia, a face obscura do ser humano, nunca podemos esquecer de que o mundo é dual. Se há obscuridades é porque em outro ponto há luz. E aí retornamos ao início, será sempre sobre o olhar que se coloca em uma obra.
Com relação ao grande público infantil, que ainda não tem condição da elaboração dos temas propostos pela série, se sob supervisão e olhar criterioso seria uma boa mensagem do que não fazer, de como não ser, consequentemente de como poderia o mundo ser um lugar melhor. Round 6 pode ser visto como um grito de socorro da vida na terra, um chamamento para que o ser humano finalmente desperte.