segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Ok! Podemos falar sobre Round 6

 


Uma série rodeada de sucesso e perplexidades. Devo assistir? Você pode me perguntar. Bom, onde há êxito é necessário estar um roteirista que queira compreender estilos, tendências, afinal, o que o público quer assistir. Assim nos deparamos com Round 6.

Toda análise fica em função do lugar (espaço/tempo) em que se está, e a questão não seja assistir ou não, e sim, como assistir. Quero dizer, com que olhar.

Uma narrativa que nos oferece camadas, e para cada camada um tema diferente. Será? Vamos pensar juntos. À parte a ideia gatilho do roteirista para desenvolver a história, não podemos esquecer de que toda criação toma vida e faz seu próprio caminho.

Com relação ao roteiro, independente das acusações de plágio, ele serve bem à narrativa, curvas que funcionam, alguns lugares bem clichês, um desenrolar previsível para as tramas, mas uma interpretação (do protagonista) que fez toda a diferença. 

Comecemos pela descrição da história, e percebam que logo neste ponto já nos são oferecidos diferentes olhares. O primeiro: Pessoas endividadas que na ânsia do dinheiro fácil, participam de um jogo composto por seis diferentes brincadeiras infantis, onde o perdedor paga com a própria vida. Outro olhar: No desespero de pagarem suas dívidas, pessoas se sujeitam a um jogo mortal sob aplausos e diversão dos poderosos. Algo como aquelas lutas entre gladiadores e leões, na Roma antiga, sob a torcida e o deleite de imperadores e aristocratas.

Duas descrições que nos entregam temas como: a ética e moralidade do ser humano nos tempos de hoje,  e injustiça/desigualdade social. E aí entra a audiência.  E encontramos públicos diversos, o que está preso às questões ideológicas, o público que procura apenas um entretenimento, é curioso e curte o que está no Top 10 da parada, o público que odeia o grotesco e proíbe suas crianças de assistirem (o que claro tem efeito reverso)... e é exatamente essa pluralidade somada que traz sucesso e repercussão. 

Nesse contexto podemos trazer duas principais análises: A que está boiando na superfície, e a do mergulho mais profundo nesse rio de sangue para compreender qual é a contribuição, de fato, que esta narrativa pode trazer à audiência. 

Falemos sobre o protagonista, Seong Gi-Hun. Na superfície vemos um anti-herói. Um homem que não tem emprego, viciado em apostas, que quer dar o seu melhor à filha mas não consegue se ajeitar na vida. Um homem humilhado e vitimizado por sua própria condição. Em face da chance de ganhar muito dinheiro, ele entra num jogo onde, de início, é vencer ou morrer, e ao longo da história descobre-se que é matar ou morrer. Sim, matar os concorrentes (que se tornam oponentes) faz parte dessa maratona sanguinária para alcançar a vida cheia de dinheiro. Porém nosso protagonista foge à regra: ele tem essa boa alma de proteger os outros concorrentes, o velhinho, embora roubasse a própria mãe para apostar. Ele é totalmente contra os assassinatos, mas engana o velhinho, o mesmo que ele protegia até pouco tempo antes, para não ser morto. Contudo, quando chega na prova final,  Seong, arrastando uma culpa quilométrica, entende que o dinheiro não está acima da vida de seu amigo de infância (último oponente). Profundamente arrependido ele desiste do jogo.  E podemos, sim, entender que o personagem fez sua transformação. 

Vamos então ao mergulho, porém aviso aos navegantes: o que está do outro lado não é nada bonito de se ver muito menos de fácil digestão. Dado o alerta, prossigamos.

Até que ponto Round 6 poderia ser um retrato fiel do mundo atual? E não estamos falando de ideologias, mas de comportamento humano. Será que corresponde? Um mundo onde queremos tudo para ontem, fácil e imediato. Um mundo dominado pelas contradições: protejo o meio ambiente mas maltrato meu vizinho, meu pai, minha mãe, hostilizo quem pensa diferente...  Um mundo onde os "poderosos" instigam pessoas (grupos) a brigarem entre si, e lhes fornecem diariamente: armas verbais, armas visuais, distrações infantilizadas, para que os grupos estejam sempre entretidos com o desimportante e com munição suficiente para exterminar o "inimigo", no caso, outro ser humano. E matam, ou cancelam se preciso for. O dinheiro manda e o homem obedece, aceita as regras, joga o jogo. 

Cruel, não é? E ainda que seja isso, e essa série venha para esfregar na cara do mundo uma verdade feia, a face obscura do ser humano, nunca podemos esquecer de que o mundo é dual. Se há obscuridades é porque em outro ponto há luz.  E aí retornamos ao início, será sempre sobre o olhar que se coloca  em uma obra.

Com relação ao grande público infantil, que ainda não tem condição da elaboração dos temas propostos pela série, se sob supervisão e olhar criterioso seria uma boa mensagem do que não fazer, de como não ser, consequentemente de como poderia o mundo ser um lugar melhor. Round 6 pode ser visto como um grito de socorro da vida na terra, um chamamento para que o ser humano finalmente desperte.



sexta-feira, 22 de outubro de 2021

PRECISAMOS FALAR SOBRE "MAID"

 



    Precisamos falar sobre "Maid", e se for preciso, chorar também, mas saiba que as lágrimas serão muito mais pela linda mensagem, do que por qualquer tristeza ou sofrimento. Essa é a minissérie da Netflix que tem como tema: a coragem.
    E se para você, falar sobre os abusos contra mulher e violência doméstica é um assunto já tão explorado, saiba que "Maid" vem para quebrar tudo! Porque não se trata de um simples relato, ela narra comportamentos humanos, escolhas humanas, e nos oferece um novo olhar sobre a mulher que não se coloca no lugar da vítima, tudo isso de uma maneira única e delicada.
    Uma história que foge ao estereótipo da mulher negra pobre que sofre violência, que precisa ganhar a vida como uma empregada doméstica e que sofre humilhações, preconceito etc, para estar focada na questão do universo feminino como um todo: a mulher que precisa buscar sobrevivência para ela e para a filha. A realidade e os sentimentos da mulher dependente financeiramente e emocionalmente do marido alcoólatra, violento, e que diante de uma situação limite de violência, se vê completamente sem rumo, tendo que fugir para recomeçar, a partir do nada. E como tememos o nada! De repente estar sem "amor", sem estrutura financeira... É desesperador, não é? Quantas vezes nos submetemos por medo de estar nesse lugar? Pois essa série trata sobre o verdadeiro empoderamento, o do ser humano que busca as soluções para si mesmo independente das dificuldades e obstáculos. Da mulher que carrega a roupa do corpo, a filha, nenhum dinheiro, nenhuma formação que a permita um bom emprego, mas muita muita coragem.
    Como roteirista que sou, claro que as análise estão sempre divididas entre, técnicas de narração e o impacto da narração para a audiência. Isso significa compreender: A mensagem foi passada? Porque é importante entendermos que há um oceano inteiro que separa a intenção de dizer, do que realmente se diz e do que o público entende.
    "Maid" é tão humano, e antes que você me diga, Ah! mais essa série é baseada em fatos reais e adaptada do livro: "Maid": Hard Work, Low Pay and a mother's Will to survive"!  Entretanto isso não muda um fato: a narrativa nesse caso faz toda a diferença, e fez. Desde a escolha do elenco, interpretação, direção, montagem magnífica, trilha sonora impecável, até a medida exata de humanidade e verossimilhança em cada cena, sequências com entrelaçamento dinâmico entre tempo presente e backstory que narram de maneira sensacional, as elipses temporais, cada diálogo. Enfim, uma narrativa moderna que soube medir a mão nas tintas do drama, a quebra nos momentos de descontração com uma nota leve de humor, muito agradável, de forma delicada e muito natural. Um exemplo é quando Alex, a protagonista, em seu ápice, tem sua sequência de cenas que mesclam diálogos e dança, e não há qualquer estranhamento nisso porque estamos com ela, naquela mesma vibração de alegria, embora aflitos, com medo de que aquela felicidade dure pouco, e dura, mas esse é um exercício muito saudável, proposto através das curvas narrativas, que é oferecer à audiência diferentes estímulos e expectativas e seja assim absorvida cada mensagem através das informações visuais e sensoriais, com o tempo da reflexão, sem perder nada. 
    Somos tragados para dentro da história no primeiro minuto de cena: o olhar amedrontado da protagonista já nos diz o que podemos esperar. Uma jovem mãe que sai da própria casa, escondida com a filha de 3 anos no colo, no meio da madrugada, e assim que entra no carro, aparece o marido batendo no vidro enquanto ela arranca em ritmo de fuga. E é nessa toada de tensão e muita torcida, até o final, que vamos ora como dinâmicos da protagonista, ora como buddies, ora como fôssemos ela mesma. Uma narração feita por imagens mais do que com diálogos, além dos pensamentos da protagonista narrados através imagens alegóricas, ou flashs de passado que reiteram o presente, mais do que pelo tão conhecido Voice over.
    E qual o impacto dessa narrativa no espectador? Em primeiro lugar a identificação imediata, no caso das mulheres, com a questão da independência x opressão, dos caminhos para alcançar a liberdade de ser, e da maternidade. A partir daí, uma enxurrada de questionamentos. Quantos de nós já não sofremos algum tipo de violência psicológica? Seja na infância em decorrência de pai ou mãe desestruturados emocionalmente, na vida adulta, com um amigo, um namorado, um chefe, ou marido? Aliás homens também passam por isso. Mas tratemos da questão feminina que ainda ressente o subjugamento pelo masculino, em uma sociedade ainda machista (mas que aos pouco vai mudando), independente da classe social, grau de instrução ou raça.
    E quando o abuso é na infância ainda seja mais provável cair em situações similares na vida adulta, e mais difícil seja encontrar a porta de saída dessa vida que se torna infeliz, torturante porém passiva. E a dor se torna um tipo de zona de conforto. Maid, expõe não apenas o problema e indica a porta de saída, vai além, nos ensina o "como" sair: senso de realidade, rejeitar o papel de vítima, ser humilde, não ter o medo de receber "nãos", ou de perder. Coragem e ousadia são os codinomes de Alex, além da empatia e altruísmo que ela esbanja, ela é alguém que tem esperança. Apesar de tantas qualidades, nossa protagonista está em processo de correção do seu misbehavior: passividade, auto anulação, medo. E com ela compramos essa briga e a acompanhamos em sua escalada de transformação.
    Eis a mensagem de Maid: "A vida está ruim, cheguei no meu limite, não tenho mais nada a perder. Então eu arrisco, eu peço, eu procuro, porque eu amo minha filha mais do que a mim mesma, e vou vencer, por mim e por ela. E se a dúvida surgir e eu perder mais uma vez, eu faço tudo de novo, me reinvento, porque eu mereço, eu tenho valor, e ocupo um lugar no mundo e na sociedade. Não preciso do sofrimento, eu simplesmente luto e acredito que tudo vai dar certo. Esperança, esperança, esperança." 
    E quando fazemos a nossa parte, o universo conspira a favor, se encarrega de colocar as pessoas certas em nosso caminho, nos abre portas, nos traz sorte, sempre. Mais do que nunca, "Maid", é a arte  imitando a vida, lindamente.




Precisamos contar sobre "Valeria"

  Como toda criação, a série Valéria, é uma experiência de percepções e sensações que podem trazer insights diferentes para diferentes cabeç...